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segunda-feira, 20 de maio de 2013

find the inner bond

Encontramos todos os motivos para nos afastarmos uns dos outros, para lutarmos uns contra os outros, para separarmo-nos uns dos outros, seja por causa do país, da religião, do clube, da raça, de tudo, em cada domínio arranjamos sempre forma de não estarmos todos pelo mesmo. Isto tem a ver com raízes muito profundas da nossa sociedade, que poucos se dão ao trabalho de encontrar.
Acredito que o humano, quando tiver consciência da origem destas raízes, quererá arrancá-las e desenvolver um novo Homem, o Homem do futuro projectado pelos maiores génios da nossa história, entre eles Fernando Pessoa. O Homem do futuro é aquele que faz a ponte entre as diferenças em vez de se afastar por causa delas. O homem do futuro é o iluminado, que se rege pela compaixão, união, espírito de comunidade.
Actualmente isto é impensável e visto como utópico por aqueles que se dizem realistas. Não sabem estes realistas que são só retrógadas e que a continuidade da nossa espécie depende disto mesmo. Não é utopia, é uma inevitabilidade. Não me iludo, sei que a mudança não se faz de um dia para o outro, nem tal é possível. Provámos já que não mudamos até estarmos no fundo do poço, e vai ser assim desta vez também. Não espero ver este homem do futuro enquanto for vivo, mas que ele surgirá, surgirá. Cada vez mais aparecem estes jovens que têm plena consciência que a sociedade não é nada do que deve ser, e mais importante ainda cada vez mais aparecem os inconformados, que para além de constatarem isto, querem também fazer alguma coisa para mudar. Este é o primeiro estágio do homem do futuro, estamos a vivê-lo actualmente. Não se enganem, o homem do futuro não é esta amostra de gente que só critica a sociedade, o país, o clube, a religião. O homem do futuro aceita as diferenças porque sabe que todos somos diferentes. É responsabilidade dele fazer com que a sociedade crie as mesmas oportunidades para toda a gente, para que cada um possa desenvolver a sua individualidade.
Caminhamos para lá, acredito que sim.
Amo o humano. Não o que é, mas o que será.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Amanhã

Amanhã um copo para mim, um copo para ti. Brinde. É do bom, daquelas colheitas enormes onde tantas vezes acabámos por nos perder nos braços um do outro e embriagarmo-nos de amor.
Já viste como a chuva cai hoje e risca a noite lá fora de estrelas cadentes? Lembras-te da nossa promessa? Lembras-te dos nossos segredos? Lembras-te dos sussurros e dos teus dedos fincados nas minhas costas? Os lençóis no chão, o meu corpo em cima do teu, o teu corpo em cima do meu, a cama aos sobressaltos e a chiar de prazer.
Acabamos a sobremesa e passeamo-nos pelas ruas de guarda-chuva. E aninhas-te nos meus braços como sempre o fazes para te protegeres da chuva. E rimo-nos dos prédios. E rimo-nos das sombras, rimo-nos de mim, de ti, de nós e de todos. E partilhamos recordações e sonhos.
Vamos para o nosso refúgio, embrulhamo-nos em cobertores e em abraços, e em beijos e em amor. E os meus dedos sentem cada centímetro do teu corpo. Mais do que sentir: eles cheiram, beijam, desejam e suplicam cada centímetro do teu corpo.
E aumentamos a respiração. E as ondas embalam o nosso barco em movimentos lentos e subtis, lentos e subtis, lentos e subtis, até o mar virar tormenta e encalharmos um no outro, por entre gemidos e apertos e arranhões e beijos e abraços…e sussurros… e silêncio.
Mas não acaba aqui. Não, porque a nossa história não acaba na cama ou no chão.
A nossa história começou muito antes de darmos por ela, começou em confissões e segredos, em gestos e sonhos, em tudo aquilo que não é palpável ou físico. Em tudo aquilo que ninguém pode ver ou provar a não ser nós próprios. Somos segredo um do outro.
E é esse segredo que guarda a nossa história.

Amanhã escrevemos um novo capítulo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

às 10 para as 7 da manhã...

"O pior castigo é partires...e deixares nos meus lençóis o teu perfume.
E as recordações que vêm com ele."

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

a Revolução

"A Revolução dá-se em duas etapas distintas: a Revolução interior e a Revolução social, sendo a primeira a mais difícil. E por isso não podemos pensar na segunda enquanto as pessoas não se decidirem a informar, a pesquisar, a instruir-se. Não falo de instrução nas estruturas escolares, não é disso que se trata. Mas sim de instrução de espírito, da distinção do bem e do mal, do certo e do errado. Do que está verdadeiramente certo e errado, não aquilo que nos impingem, não daquilo que somos forçados a acreditar sem darmos por isso.
Gostava de acreditar que a verdadeira Revolução se daria enquanto sou vivo, mas cabe a mim saber convictamente que até o primeiro passo levará anos a concretizar-se.
O Mundo está preparado para a Revolução, sempre esteve. As Pessoas não."

o Tempo

"O Tempo não pára nem avança, tudo o que nos induz é a sensação de estarmos com quem gostamos. E por isso não existe tempo ganho nem tempo perdido. Apenas tempo vivido."

sábado, 25 de setembro de 2010

Ambições

“Quando era pequeno, a minha maior ambição era fazer todo o mundo feliz.
Entretanto cresci, e vi quão irreal era esse meu sonho. Então decidi que seria minha ambição fazer felizes as pessoas em meu redor.
Voltei a crescer, e apercebi-me de que existem pessoas que não foram feitas para serem felizes.
Então decidi que seria minha ambição ser feliz, e esperar que toda a gente no mundo tivesse essa mesma ambição.
E assim o meu primeiro sonho seria real.”

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A arma do silêncio

Não sou ninguém para o fazer, nem tenho competências para, mas quem é que nunca quis ou tentou escrever um livro?
Eu já e este é o início do prólogo que comecei recentemente a escrever e que tenciono levar ao fim.
Será sobre liberdade, tendo como temas a homossexualidade, os regimes totalitários, o direito de opinião e a amizade.
Quando o virem na Fnac, na dedicatória poderão ler "Dedico este livro a todos aqueles que já foram mortos, torturados ou perseguidos por exercerem o seu direito humano de opinião."
Parece que estou armado em escritor mas não, é um...texto...ainda...sobre coisas que mexem comigo e que me tocaram num filme com Javier Bardem (actor por quem estou completamente apaixonado) e Johnny Depp, chamado "Antes que anoiteça".
O início do Prólogo, ainda sem correcções, está assim.

As palavras saiam-lhe pelos dedos à medida que ele fustigava as teclas da máquina de escrever a toda a velocidade, atropelando os dedos numa onda de inspiração desenfreada, comendo sílabas, saltando palavras, ignorando a acentuação. O som que vinha da pequena televisão a preto e branco era quase imperceptível, por baixo do som da pesada chuva que martelava o telhado com força e o vento que rugia, ameaçando levantar as telhas do telhado frágil, tudo isto ritmado pelo constante Tac-Tac que saía da máquina de escrever como tiros de metralhadora. “O Inverno que triste bate à porta dos desafortunados é o mesmo que irradia a casa dos optimistas…”, as palavras não lhe pareciam as certas, as metáforas eram desapropriadas e sem sentido, mas ele não se importava, não as iria apagar mal arrancasse a folha da máquina de escrever, apenas continuava a digitar letra após letra, sem interromper o Tac-Tac delirante da sua obsessão pela palavra certa, pela frase completa, pelo texto perfeito.
Um barulho na porta interrompeu o frenético martelar da máquina de escrever, como um trovão que decidira castigar aquele pedaço de madeira gasta e esburacada a que ele gentilmente chamava de porta. Os baques na porta persistiam, como tiros de canhões, ameaçando arrancá-la das dobradiças que rangiam a cada batimento. Levantou-se calmamente da sua cadeira, que estalava como paus secos numa lareira, arrancou a folha da máquina de escrever e aproximou-se com vagar da porta, ignorando o barulho ensurdecedor que dela provinha. Quando chegou a meros metros da porta, esta foi arrancada das dobradiças com uma força tremenda, pontapeada por alguém e lançada contra o seu fraco corpo, atirando-o ao chão, levantando o pó da alcatifa manchada.
- Onde é que está? – rugiu uma voz imponente.
Afastou a porta de cima do seu corpo, levantando-se a custo, não fosse a doença que lhe carcomia o corpo por dentro, tornando o mais pequeno esforço numa prova olímpica. Olhou para a figura que lhe acabara de invadir o quarto alugado, um charuto preso entre os dentes amarelados, soltando no ar um fumo cinzento que serpenteava desde a ponta acesa. Um pontapé no ombro arremessou-o novamente para o chão, a cabeça a bater com força na alcatifa que pouco fez para amparar a queda. O vulto aproximou a cara da sua e, pela primeira vez, ele viu-lhe os olhos. Viu os olhos, mas não viu mais nada para além deles. Vazios. Uns olhos verdes, frios, sem expressão nem emoção, apenas um esgar de malvadez, dois pontos ameaçadores naquela cara riscada de rugas. Sentiu-lhe o hálito a charutos baratos, um hálito que o enojou e o fez virar a cara, não fosse a imponente mão daquele homem agarrar-lhe nos poucos cabelos que ainda tinha presos à cabeça e virá-lo forçosamente para ele, encostando o nariz ao seu. Sentiu algo frio colar-se-lhe na bochecha. Sem se virar, ouviu um estalido metálico, identificando instantaneamente a arma que apontava directamente para a sua cara.
- Onde é que está?! – ladrou novamente a voz, seguida de uma tosse seca.
Sentiu os olhos encherem-se de lágrimas, como uma inundação incontrolável, a visão a distorcer-se e o medo a tornar-se real, a adrenalina a pique. Não conseguia falar, não lhe saía um som pela boca por mais que tentasse, não conseguia responder, não conseguia suplicar pela sua vida, mal conseguia respirar, tudo o que lhe saía da boca era um gemido ingovernável, um balbuciar desmedido quando tentava responder àquela pergunta ameaçadora.
(...)



Não tenho direitos de autor, mas também duvido que alguem pegue nisto ahah!
Abraços!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Futuramente, quem sabe?

Cheguei a casa já a noite vos tinha adormecido, o silêncio dava-me as boas-vindas. Pé ante pé, quase a flutuar sobre o soalho, aproximei-me da porta do teu quarto e abria-a o suficiente para te ver aninhado debaixo dos cobertores, o ursinho apertado contra o peito. Entrei silenciosamente, a conter a respiração com medo de te acordar, de te raptar do mundo de sonhos cor-de-rosa onde quero que vivas. Contornei a cama e vi-te a cara, os olhos de anjo fechados, a boca entreaberta a libertar uma respiração quase inaudível. Afastei-te o cabelo da testa e beijei-ta, aconchegando os cobertores para te tapar os ombros. “Amo-te Daniel”. Deixei o quarto com um sorriso e fechei a porta sem um único ruído.

Entrei no nosso quarto e despi-me o mais silenciosamente que pude, mas não o suficiente para não te acordar. Vi-te remexer na cama quando acabava de vestir o pijama e deitei-me a teu lado. Semi-abriste os olhos para te certificares de que estava tudo bem, e beijei-te nos lábios. “Boa noite” disse. Passei a mão pelo teu peito, descendo-a até ao ventre arredondado, sentindo a vida que crescia dentro de ti. “Boa noite Sarah”.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um dia.

Um dia vou chegar no meu cavalo branco, com os meus collants apertados e levá-la para o meu palácio. Um dia vou viver feliz para sempre com ela, como nos prometem constantemente as histórias contadas pelas nossas avós.
Um dia construo a nossa casa, pedra a pedra e deixo à porta um tapete a dizer “Bem-vindo”. Um dia levo-te, como nos meus sonhos, a navegar numa jangada naquele lago de água transparente que nos convida a mergulhar. Um dia levo os miúdos à escola e dou-lhes um beijo de boa noite. Um dia agarro-te, junto à lareira, e fazemos amor com o fogo a alumiar-nos a pele e a chuva a espreitar pelas cortinas. Um dia o sol há-de ser tão quente que vamos os quatro tomar banho nus no rio, para grande espanto dos pescadores que hão-de estar nas suas margens. Um dia os nossos lábios hão-de se tocar, no topo da torre Eiffel.
Um dia olhas-me nos olhos e apercebes-te que sou teu.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Ode a ela!

Conheço-te há tanto tempo que já nem me lembro ao certo de quantos anos passaram entretanto. Desde então fomos inseparáveis. Crescemos juntos. Acompanhaste-me nos bons e nos maus momentos, estiveste lá quando chorei por aquela noite adentro e estiveste lá quando me senti o homem mais feliz do mundo. À noite parece que oiço a tua voz a dizer-me boa noite, eu sei que estás lá! Há quem diga que não ficamos bem juntos, que não foste feita para mim e que nos devemos separar. Mas recuso. Recuso-me a viver sem ti, sem o teu amor, sem a tua presença. Estás sempre comigo e recusas-te a separar de mim, e eu de ti! Por muito mal que te sintas, por mais infeliz que estejas, eu sei que nunca te vais cortar, nunca vais deixar de estar comigo por muito mal que eu te faça. Vais ficar comigo até ao resto dos meus dias e só contigo imagino o meu futuro. Tu mudaste-me. Fazes parte de mim, fizeste-me ser quem sou, como sou, e vejo um pouco de ti quando me olho ao espelho. Por ti, por mim, e por nós, hoje só te quero agradecer publicamente por fazeres parte da minha vida.
Amo-te, monocelha!

domingo, 12 de abril de 2009

O quarto.

Era uma vez um quarto.
Esse quarto pertencia a uma casa abandonada, onde ninguém se atrevia a entrar, por medo das histórias que se contavam na terra onde essa casa estava situada.
O quarto nunca tinha sido utilizado pelos seus antigos donos a não ser para porem a tralha, as coisas que ninguém utiliza mas que não têm coragem de deitar fora. Se o casal da casa tivesse um filho…aí sim, aquele quarto poderia ter tido algum valor. Assim não. Nunca tinha sido um quarto de ninguém, nunca tinha tido esse privilégio. Já tinha sido um quarto bonito, era um quarto com medidas bastantes razoáveis, simplesmente não tinha a melhor vista. A janela que outrora permitia os raios de sol encherem o quarto de luz, tinha sido tapada com madeiras velhas a caírem de podre, o que fazia com que apenas pequenos feixes de luz espreitassem timidamente o quarto. O pó dançava quando passava por um desses feixes, desaparecendo de seguida quando regressava à penumbra do quarto.
"Numa palavra, vazio."
Não guardava boas recordações no seu interior. Nem más. Simplesmente não se tinha passado nada naquele quarto digno de ser recordado.

Era uma vez uma criança.
Aqueles olhos claros a contrastar com o tom de pele mais moreno que o habitual faziam dela alguém que dava nas vistas. Era brincalhona, apesar de tímida. Não tinha muitos amigos. Aliás, a sua única amiga era aquela boneca de trapos que tinha desde que se lembrava da sua própria existência, oferecida, disse-lhe uma vez a mãe, pela sua avó…que já não estava por cá.
Aquela criança era nova nas redondezas, ninguém sabia donde aquela família tinha vindo, mas ninguém se interessava por saber.
Um dia a criança reparou naquela casa. Uma casa abandonada, esquecida por todos a não ser pelo tempo, que a desgastava a olhos vistos. Ao contrário das outras pessoas, achou piada àquela casa, quis saber que segredos aquele cadeado enferrujado trancava para lá daquelas portas de madeira gasta. Hesitou em entrar por uma daquelas grandes janelas com os vidros partidos, afiados, assemelhando-se a dentes que a ameaçavam caso se atrevesse a entrar por aquela janela. Acabou por arranjar coragem e conseguiu pular para o interior da casa.
O pó enchia-lhe as narinas rapidamente, dificultando a respiração. Não se via nada lá de dentro a não ser uma luz ténue que provinha da janela donde entrara. Procurou aos apalpões pela parede outras janelas que pudesse abrir, e encontrou-as. Abriu-as forçosamente, com a madeira das portadas a rangerem furiosamente, acordadas após longos anos de repouso.
De repente, toda a casa era luz.
Era impressionante a forma como um sítio tão belo tinha sido transformado em ruínas. Toda a decoração, os móveis antigos, os retratos nas paredes imundos pelo pó davam à criança a sensação de que aquela casa tinha sido noutra altura um lar bem mais sumptuoso do que o que a maioria das pessoas tinha acesso. Encantada pela beleza escondida daquele local, subiu as longas escadarias. Passou a casa a pente fino, apreciando cada detalhe daquela obra, abrindo as janelas ao longo do seu caminho, enchendo a casa de luz.
De repente, ao fundo dum dos corredores, uma porta.
Uma porta diferente de todas as outras da casa. Não tinha fechadura nem puxador. Impossível de abrir do lado de fora, pelo que a criança perdeu desde logo o interesse pelo quarto da porta sem fechadura. Quando deu por satisfeita a sua curiosidade em relação à casa abandonada, regressou para sua própria casa. À noite, enquanto estava deitada na cama a relembrar a sua aventura desse dia, os seus pensamentos enchiam-se de fantasias. No entanto, havia algo que a impedia de dormir.
Aquele quarto.
Um quarto onde ninguém podia entrar. Porquê? O que é que se passaria dentro daquele quarto, haveria algo de tão secreto que ninguém pudesse ver?
No dia seguinte voltou à casa. Subiu apressada a escadaria e correu para o fundo do corredor. Mais uma vez, a porta. Maciça, intransponível, austera. A criança passou as mãos pela porta, à procura de algo que a fizesse abrir, mas sem resultado. Voltou para casa e tentou dormir, mas mais uma vez aquela porta não lhe saía da cabeça.
No terceiro dia foi para a casa abandonada mais uma vez com a sua companheira inseparável, a sua boneca de trapos, e passaram horas a deambular pelas divisões das casas enquanto brincavam. Enquanto corria pelos corredores, deu por si uma vez mais frente a frente com aquela porta. Desinteressada, deu meia volta e voltou-se em direcção à escadaria, preparando-se para mais uma correria. Mas não correu. Ficou imóvel, estática de costas para aquela porta. Teria sido o seu cérebro a pregar-lhe uma partida? Virou-se lentamente de frente para a porta e olhou-a à altura do seu peito.
Não podia ser. Aquela fechadura não estava ali, não podia estar. A criança tinha passado os dois últimos dias em busca dum orifício naquela porta e, de repente, uma fechadura. A criança espreitou, curiosa, a fechadura, mas sem nenhum resultado porque nada se via através dela a não ser um manto negro. Sentou-se de costas para a porta, ainda a pensar no que é que teria acontecido para aparecer ali uma fechadura dum dia para o outro. Passou o resto do dia sentada à frente daquela porta, a brincar com a sua boneca. No final do dia, regressou para sua casa.
No dia seguinte regressou àquela casa abandonada, já nem reparava na grandiosidade das restantes divisões, apenas se concentrava em chegar rapidamente àquela porta. Quando se aproximou dela nesse dia, ficou sem reacção. Sentiu um arrepio na espinha e avançou cautelosamente, pé ante pé, até chegar à porta. Ali, mesmo em cima da fechadura que tinha misteriosamente aparecido no dia anterior, estava um puxador. Um puxador! Da cor do ouro, a reluzir, sem um único vestígio de pó. A criança pegou no puxador como se estivesse a pegar no objecto mais valioso do mundo e tentou empurrar a porta. Nada aconteceu. Tentou puxá-lo, mas mais uma vez nada aconteceu. Ainda pasmada com tal sucessão de acontecimentos, sentou-se novamente contra a porta e adormeceu.
Acordou do seu sono como que desperta dum sono de mil anos e demorou a aperceber-se onde estava. Olhou pela janela do corredor e viu um sol brilhante. Impossível! Antes de adormecer já o sol se estava a pôr…Teria passado a noite a dormir naquela casa abandonada? Levantou-se tentando perceber o que é que tinha acontecido, quando olhou para a porta. Como se tivesse levado uma forte chapada no rosto, caiu para trás. Tentou levantar-se novamente, com as pernas a tremerem por todos os lados, olhando para a chave que agora atravessava a fechadura da porta. Aquela epifania deixou-a zonza, sentia-se a cambalear enquanto se aproximava mais uma vez da porta. Quando a alcançou, agarrou com cuidado a chave e rodou-a. Abriu-a lentamente, como que a medo de acordar alguém e deixou-a fechar-se atrás de si.
O que aquela criança viu naquele quarto é algo que não pode ser descrito. O mais próximo que consigo levar-vos a imaginar o que aquela criança viu é…imaginem-se num mundo onde tudo o que querem está lá, onde todos os vossos sonhos se materializam, onde tudo o que vocês viram de maravilhoso até hoje não é nada comparado àquele quarto.
A criança não podia acreditar nos seus olhos, era impossível existir aquele quarto, mas o facto é que ela estava mesmo lá e via mesmo aquilo que os seus olhos lhe mostravam. Passou dias naquele quarto, agarrada a todas as sensações que aquele quarto lhe despertava. Até que decidiu mostrar à sua mãe o seu achado. Correu para casa, pegou na mão da sua mãe e guiou-a à casa abandonada. Ajudou-a a pular a janela, subiu as escadas aos tropeções antecipando a reacção de estupefacção da mãe mal visse aquele quarto. Quando chegou à porta, a mãe suspirou e preparou-se para lhe ralhar. Afinal, aquela porta não tinha fechadura, não tinha puxador, não tinha nada! A sua filha apenas a fez perder tempo e não lhe agradava o facto de ela ter passado tanto tempo fora de casa, ainda por cima naquele sítio. No entanto, a criança passou-lhe à frente e aproximou a mão da porta. Colocou o seu indicador e polegar unidos na ponta, como quem segura uma chave. E rodou a mão.
Subitamente, a porta abriu-se.
A criança e a mãe entraram no quarto, a criança sorria, gargalhava, pulava, enquanto via a reacção incrédula da sua mãe.
- Mãe, podemos viver aqui para sempre?
A mãe olhou à sua volta e depois para a sua filha. Tentava perceber porque é que a sua filha sorria, porque berrava, porque pulava. Não fazia nenhum sentido, aquele quarto estava
"Numa palavra, vazio."


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Eu.
Nós.