Não é recente a minha rejeição às coisas que me são impostas a fazer sem outra justificação que não seja “é assim que as coisas são”.
E por isso quando, no secundário, me obrigaram a ler Fernando Pessoa porque “é assim que as coisas são”, simplesmente não o fiz. Acabei por passar de ano e acabar o secundário sem nunca abrir a Mensagem ou sem saber mais sobre o Fernando Pessoa do que o facto de ter uns quantos heterónimos.
Desde que acabei o secundário que tenho sido autodidata em questões filosóficas e humanas, fazendo investigações por interesse meu e não por obrigação ou porque “é assim que as coisas são”. Esse meu trajecto de investigação e de aprofundamento intelectual levou-me, inevitavelmente e sem que eu o prevesse ou sequer pensasse, à figura de Fernando Pessoa.
Nunca me tinha surgido o interesse nesta figura, a poesia não é certamente a minha forma de leitura preferida. No entanto, tornando-me eu “aluno” do génio de Agostinho da Silva (que, por sua vez, era “aluno” do génio de Pessoa), vi-me lentamente aproximar do poeta.
Assim, num dos meus passeios pela Bertrand, cruzei-me com um pequeno livro que tinha um artigo escrito pelo Fernando Pessoa, descrevendo as classes intelectuais dos portugueses.
Este foi o ponto de partida, senti que naquele livro (escrito em prosa e não em poesia) estava escrito algumas das questões que eu já tinha levantado através de reflexão própria, mas explicadas e devidamente argumentadas pelo génio (e que génio era!) do Fernando Pessoa.
Esse, como disse, foi o ponto de partida.
A continuação passou-se de forma tão imprevista como a introdução ao génio de Pessoa: Da primeira vez aconteceu eu tropeçar no tal livro “O caso mental português” na Bertrand. Desta vez, calhou tropeçar novamente em Pessoa na Fnac. Procurava eu um livro de bolso qualquer, de preferência de contos, quando vejo um livro fininho (e, presumivelmente, barato) de título “A maçonaria”. Já tive mais interesse nesta questão, por isso não tinha pegado no livro se não lesse o seu autor “Fernando Pessoa”. Fernando Pessoa? Maçonaria? Seria ele maçon?
Comprei o livro por 4 euros e pouco, e li-o em 30 minutos. Pelos vistos, Pessoa não era maçon mas tinha uma opinião muito própria sobre a maçonaria não fosse ele (segundo diz) uma das pessoas fora da maçonaria que a conhece melhor. Aquele livro (que originalmente tratava-se de um artigo num jornal da época), não me serviu para conhecer melhor ou pior a maçonaria, mas serviu-me para comprovar que o Fernando Pessoa era, de facto, uma pessoa de génio, com um poder de reflexão e argumentação que, parece-me, não há outro igual actualmente, pelo menos que seja do meu conhecimento.
Mais importante do que tudo isso, estes dois livros deram-me duas prespectivas diferentes:
Primeiro, tive orgulho em apaixonar-me por Pessoa não por obrigação, mas por natural percurso “intelectual” que estou a tentar fazer. Em segundo lugar, descobri que Pessoa é muito mais do que poesia. Que os seus artigos e textos em prosa são aqueles onde melhor e mais profundamente conhecemos a opinião social e intelectual dele.
E então, um dia, na mesma prateleira da Fnac, encontro um livro chamado “O banqueiro Anarquista”, de Fernando Pessoa. Comprei-o, não fosse ele 5 euros e qualquer coisa. Se foi um livro que mudou a minha vida? É bem capaz de ter sido e eu é que ainda não me apercebi. Sem dúvida que me ajudou a solidificar a minha opinião acerca do anarquismo, mas mais importante que isso, para mim, é como um livro tão forte, tão inteligente e cheio de conteúdo se torna desconhecido sendo ele de um dos maiores autores do século XX.
Tudo isto para dizer duas coisas:
Com este meu caso, comprovado está que o sistema educativo é deficiente e ineficaz, este sistema que desperta o cumprimento de ordens em vez da paixão pelas coisas. Odiei pensar em Pessoa enquanto fui obrigado a fazê-lo, mas logo me apaixonei assim que descobri a sua personalidade por interesse meu.
A segunda coisa é que Fernando Pessoa, muito mais do que um grande poeta, era um grande intelectual no verdadeiro sentido da palavra. Não era um pseudo-intelectual como muitos da altura e todos da actualidade. Para mim o mais importante em Fernando Pessoa não foram os poemas, mas sim a complexidade intelectual que manifestava nos artigos que escrevia.
E por último, segundo o meu mestre Agostinho da Silva, o maior poema de Pessoa não foi qualquer coisa que ele tivesse escrito, mas a própria vida. Viveu como poeta, cumprindo-se, não importando se comia ou bebia.