Quando se fala pela primeira vez de uma sociedade onde
não exista um sistema monetário a uma pessoa que nunca pôs a questão em causa,
a resposta é invariavelmente a mesma: “utopia”. Não me vou alongar em
explicações sobre a comprovada abundância que o nosso planeta poderia alcançar
caso abandonássemos o sistema monetário onde tudo o que se faz não se faz para durar
o máximo tempo possível, nem para ser o melhor possível, mas pura e
exclusivamente para a obtenção de lucro. Daí resulta um sistema de saúde
deficitário, um sistema de justiça deficitário, um sistema de ensino
deficitário, uma comunicação social deficitária e, resumidamente, uma sociedade
deficitária. Mas, como disse, não me vou alongar
nestas questões pois vou deixá-las para uma outra oportunidade.
O nascimento deste texto dá-se em resposta a essa
questão tão frequentemente levantada pelos quadrados (chamo assim às pessoas
que negam algo que nunca puseram em causa), sobre a utopia de um sistema
baseado nos recursos naturais em vez de um sistema monetário. Geralmente,
quando é iniciada a conversa sobre este tema, mal é começada a primeira
explicação sobre os ideais sociológicos de uma pessoa que não acredite na
eficaz sustentabilidade do sistema monetário, o burguês (ou o quadrado) passará
a nossa primeira explicação não a ouvir atentamente mas a tentar descobrir a
que ideologia política os nossos ideais correspondem. Por outras palavras, na
explicação de abertura estará o interlocutor a tentar categorizar o que ouve, a
pôr um rótulo de “anarquista” ou “comunista” ou “utópico”.
No meu caso
acontece que desenvolvi as minhas ideologias sociais antes de conhecer
concretamente as ideologias políticas, e talvez daí resulte que quando cheguei
a uma convicção sobre aquilo que devia ser a sociedade actual, não a vi como
uma ideologia política por duas razões: em primeiro lugar porque não acredito
que a política deva ter um lugar de tamanha importância na vida de toda a
população de um determinado país, por acreditar que não são os políticos que
estudam para encontrarem soluções para as questões essenciais de um país que
são a de garantir alimentação, abrigo, ensino e saúde para todos (cabem estas
questões a agricultores, pescadores, engenheiros, arquitectos, cientistas ou
médicos); os políticos chegam ao seu estatuto sabendo às vezes algumas coisas
de números, gíria económica, mas, acima de tudo, noção de lucro. É fácil de ver
que não são números que nos alimentam, nem gíria económica que nos abriga, nem
noções de lucro que nos cura. Em segundo lugar, porque quando cheguei ao ponto
de olhar para aquilo em que acredito que resulta em termos sociais, reparei que
não sou nem anarquista, nem comunista, nem socialista, nem fascista, mas uma
mistura de tudo, num esforço por dar a mesma oportunidade de desenvolvimento
pessoal a alguém que acredite que deve seguir a sua vida de uma determinada
maneira diferente da minha. O que não acontece, de resto, em qualquer outra
ideologia política que não a do anarquismo, pois em todas as outras há sempre o
conceito de “esquerda” e “direita” que não respeita a liberdade plena do
indivíduo do grupo oposto.
Dizia eu que
a primeira reacção de um interlocutor quadrado numa discussão desta natureza é
categorizar as nossas ideias, rotular como nas secções por tema de uma
livraria, e então dizem “és anarquista”, ou “és comunista”, ou “és fascista”,
sem tentarem seguir a linha de raciocínio até ao fim para depois a poderem pôr
em causa com argumentos fundamentados. Em relação a argumentos fundamentados,
aí entram algumas questões curiosas porque o que acontece geralmente é que os
argumentos de um quadrado nunca são fundamentados. Defendem o sistema monetário
porque foi nele que cresceram, é nele que vivem e nunca sequer pararam para
pensar nos benefícios (que houveram) e malefícios de um sistema deste género.
Então dizem “já foi experimentado anarquismo, já foi experimentado comunismo,
já foi experimentado fascismo. Só o capitalismo resultou bem”.
Pois bem.
Acho, em primeiro lugar, que não se podem comparar sistemas políticos que
tenham sido experimentados em épocas ou condições geo/demográficas
completamente diferentes. Em segundo lugar, acredito que dizer que o
capitalismo resultou, ou resulta, bem, é de uma ignorância de factos que, além
de perigosa, tem sido o alimento do próprio capitalismo.
A começar
pela educação. Acreditar que a educação resulta bem quando a esmagadora maioria
dos alunos acaba o ensino chamado secundário sem ter a mínima noção do que nasceu
para se tornar em adulto. Acreditar que a educação resulta bem quando esta é
feita de forma a que as crianças se tornem desde cedo em soldados de produção
com uma mentalidade competitiva, em que quando sairem da escola devem fazer não
aquilo para que sentem que nasceram, não realizar-se pessoalmente, mas sim
escolher um trabalho consoante as necessidades do mercado. E passam os
estudantes (principalmente os do ensino superior) por uma altura da vida em que
a criatividade, imaginação e energia naturais da idade são desperdiçadas em
quartos de estudo intensivo onde não têm tempo para descansar, para comer, para
se divertir nem para viver. Optam por cursos com cadeiras onde não vêem
utilidade nenhuma, têm professores que não querem saber de mais nada do que ter
a sua conta em ordem no final do mês, gastam rios de dinheiro em material
obrigatório desnecessário e para quê? Quando saem na universidade são poucos os
que encontram trabalho na sua área de formação; menos ainda são os que sentem
que aquele curso os realizou a um nível pessoal.
Não tenho
soluções definitivas, porque não acredito em soluções definitivas, conclusões,
ou tudo o que seja imposto, porque acredito que há sempre algo mais, alguma
forma de sermos melhores, mas acredito que o ensino “superior” devia passar não
por uma sucessão de cursos com cadeiras que só lá estão para preencher tempo,
mas devia o aluno de poder escolher as cadeiras que achasse interessantes para
ele entre os vários cursos e, a partir daí, criar ele um conjunto de
competências com que poderá ajudar a sociedade ou ele próprio a desenvolver-se.
No ensino chamado primário (e peço desculpa por não seguir a explicação pela
ordem de ensinos), deveria o aluno poder chegar à escola e escolher aquilo que
quer aprender, seja isso aprender a escrever, aprender a construir uma cadeira,
aprender a lançar o papagaio ao ar ou aprender a cantar. Mas como daí a alguns
anos os alunos do primário têm de ter uma série de competências para poderem
entrar no mercado de trabalho, não podem ter a liberdade de fazerem aquilo que
gostam ou, mais simplesmente ainda, de aprenderem aquilo que gostam.
Porque a
nossa vida é isso não é? Não fazemos aquilo que gostamos, muitos de nós nem
sequer sabemos aquilo que nascemos para ser, mas vivemos nesta forma de
escravatura oculta, onde temos trabalhos que não gostamos e que na verdade não
servem para o desenvolvimento de nada que interesse, mas temos de trabalhar
para sobreviver. Estamos no século XXI, no auge da mecanização e tecnologia,
onde há máquinas para fazerem todo o trabalho que é realmente necessário
(criação de alimento, abrigo, energia). Não é que todos os trabalhos fossem
substituíveis por máquinas, mas se substituissem todos aqueles possíveis por
mecanização, talvez o ser humano já não precisasse de trabalhar 8, 10, às vezes
24 horas por dia. Mas para que aceitássemos que a mecanização fizesse o
trabalho por nós, tinhamos de tirar da cabeça a ideia de que o desemprego é um
facto altamente negativo no desenvolvimento de um país. Só num sistema
monetário, onde o lucro vem desta escravidão da população, é possível olharmos
para o tempo disponível para nós como negativo. Porque sem trabalho não há
dinheiro, sem dinheiro não há comida nem casa, nem saúde, nem educação. Fora
com o capitalismo e sistema monetário, que venham as máquinas para fazer o
trabalho por nós, desenvolvamos as máquinas para que a próxima geração já não
tenha de fazer um trabalho que nós hoje temos, e verão como o desemprego é uma
benção porque nos dá tempo para nos realizarmos como indivíduos. É incrível a
quantidade de pessoas que acorda todos os dias de manhã sem o sentimento de ir
fazer nesse dia aquilo que realmente gosta, ou de ir em busca daquilo que gosta
ou é. Em vez disso, acordam para ir para um emprego que não os realiza, com
pessoas que não são as com quem eles preferiam estar, com horários que não
deixam espaço para continuar a procurar aquilo que os realiza como indivíduos
ou para se dedicarem como deveria ser às famílias.
Porque é que
deixámos de acreditar que nascemos para sermos felizes ou que, tão simples
quanto isto, não temos culpa rigorosamente nenhuma de termos nascido e por isso
não nos deve ser dado o castigo de trabalharmos para podermos continuar com a
vida?
Referi a educação,
porque acho que é o pilar mais importante da construção de uma sociedade
realmente sustentável e, como eu creio que deva ser, livre.
Outros casos
são de igual importância, mas que não vou pormenorizar para que este texto não
se extenda a ponto de livro. Não posso, no entanto, deixar de referir a
constatação curiosa de que o número de sem-abrigo é inferior em qualquer país
ao número de casas inabitadas. Porque é que isto acontece? Lucro; sistema
monetário; capitalismo. Tantos outros são os casos, uns mais, outros menos
impressionantes que permitimos que aconteçam. Nem vale a pena sequer falar do
valor desta falsa democracia onde a única diferença política entre isto e o
fascimo pelo que Portugal já passou é que agora podemos escolher quem é que
queremos que nos prenda pelos braços e pelos pés e nos lance à vida. De que
fazemos valer a luta dos nossos antepassados pelo fim do fascismo quando desde
então as nossas escolhas caem apenas sobre dois partidos (mais um de vez em
quando) que já deram provas de não serem capazes de resolver as questões
fundamentais das pessoas do seu país. Não faço nenhum ataque pessoal a nenhum
desses partidos porque não acredito que a culpa seja dos políticos que, como
qualquer pessoa actualmente neste tipo de sociedade, tenta ter o melhor sucesso
possível, mas culpo a ignorância das pessoas, a opção que tomamos de nos fingirmos (ou sermos mesmo) cegos a estas
questões e, mais importante ainda, de não procurarmos soluções. Para que
quisemos a democracia afinal? Não acredito na política e por isso a minha
solução neste campo passa, mais uma vez, pela solução que me parece mais
simples: deixem os arquitectos e engenheiros decidirem que tipo de construções
são melhores, mais funcionais e em que sítios devem ser feitas para poderem
estar disponíveis nas melhores condições sustentáveis para toda a população.
Deixem os agricultores decidirem a melhor forma de nos organizarmos para que haja
alimento disponível para toda a população. Dêem espaço para que todos possam
sugerir novos modelos, novas fórmulas que lhes pareçam possíveis. Deixem de
fazer da comunicação social, da televisão, um latrina cheia de merda e dêem-lhe
conteúdo, dêem razões às pessoas para pensar. A televisão neste momento é
composta 70% de programas de entretenimento, 20% de programa de informação
inútil ou falaciosa, 8% de arte audiovisual e 2% de informação útil. Todos
aspiram a ter um programa na televisão, mas depois notam que não têm tema para
encher todo o tempo de programa que têm de fazer. Então em todos os programas
“enche-se chouriço”, fala-se do que não é importante porque o importante é ter
um programa e aparecer na televisão para as pessoas se venderem como marcas, em
vez de a televisão ser um espaço aberto para que cada pessoa possa mostrar um
trabalho que tenha feito, ou algo que queira partilhar e que seja de interesse
comum a uma parte da população. Mais uma vez, a comunicação social (cujo papel,
a meu ver, está muito àquem daquele que deveria ser) e a televisão falham por
causa do sistema em que estão inseridos. Porque é mais lucrativo, vai dar mais
audiências ter uma figura conhecida a apresentar um programa sem valor, do que
um completo desconhecido a apresentar um programa de conteúdo interessante,
porque esse vai ser passado às 4 da manhã num canal a pagar. Então há que
agradecer muito ao sistema educativo e à comunicação social pela ignorância das
pessoas.
Tudo o que
foi escrito aqui é utópico. É utópico enquanto vivermos num sistema que não
pomos em causa, é utópico enquanto andarmos de olhos fechados e é utópico
enquanto não existir uma revolução interior nas pessoas e é utópico enquanto
não percebermos que aquilo que conhecemos não é, afinal, a única solução
possível, nem sequer a melhor.
Aos que me
chamam utópico, gostava ainda que percebessem que nada do que eu escrevi poderá
ser feito do dia para a noite. Aliás, nada acontecerá enquanto nós próprios não
tivermos consciência das vidas que temos e optarmos, nós, por mudar primeiro a
nós próprios e depois a sociedade.
Pode ser este texto o ponto de arranque para essa introspecção, terá servido de alguma coisa se estas linhas ajudarem alguém a entrar num estado reflexivo, seja qual for a conclusão a que chegue; nem me importa, sequer, que essa reflexão termine numa conclusão diferente da minha, se for esse o caso tanto melhor – assim em vez de haver só uma solução passarão a haver duas.
Pode ser este texto o ponto de arranque para essa introspecção, terá servido de alguma coisa se estas linhas ajudarem alguém a entrar num estado reflexivo, seja qual for a conclusão a que chegue; nem me importa, sequer, que essa reflexão termine numa conclusão diferente da minha, se for esse o caso tanto melhor – assim em vez de haver só uma solução passarão a haver duas.
Hugo Pinto
25-01-2012
25-01-2012
