Era uma vez um quarto.
Esse quarto pertencia a uma casa abandonada, onde ninguém se atrevia a entrar, por medo das histórias que se contavam na terra onde essa casa estava situada.
O quarto nunca tinha sido utilizado pelos seus antigos donos a não ser para porem a tralha, as coisas que ninguém utiliza mas que não têm coragem de deitar fora. Se o casal da casa tivesse um filho…aí sim, aquele quarto poderia ter tido algum valor. Assim não. Nunca tinha sido um quarto de ninguém, nunca tinha tido esse privilégio. Já tinha sido um quarto bonito, era um quarto com medidas bastantes razoáveis, simplesmente não tinha a melhor vista. A janela que outrora permitia os raios de sol encherem o quarto de luz, tinha sido tapada com madeiras velhas a caírem de podre, o que fazia com que apenas pequenos feixes de luz espreitassem timidamente o quarto. O pó dançava quando passava por um desses feixes, desaparecendo de seguida quando regressava à penumbra do quarto.
"Numa palavra, vazio."
Não guardava boas recordações no seu interior. Nem más. Simplesmente não se tinha passado nada naquele quarto digno de ser recordado.
Era uma vez uma criança.
Aqueles olhos claros a contrastar com o tom de pele mais moreno que o habitual faziam dela alguém que dava nas vistas. Era brincalhona, apesar de tímida. Não tinha muitos amigos. Aliás, a sua única amiga era aquela boneca de trapos que tinha desde que se lembrava da sua própria existência, oferecida, disse-lhe uma vez a mãe, pela sua avó…que já não estava por cá.
Aquela criança era nova nas redondezas, ninguém sabia donde aquela família tinha vindo, mas ninguém se interessava por saber.
Um dia a criança reparou naquela casa. Uma casa abandonada, esquecida por todos a não ser pelo tempo, que a desgastava a olhos vistos. Ao contrário das outras pessoas, achou piada àquela casa, quis saber que segredos aquele cadeado enferrujado trancava para lá daquelas portas de madeira gasta. Hesitou em entrar por uma daquelas grandes janelas com os vidros partidos, afiados, assemelhando-se a dentes que a ameaçavam caso se atrevesse a entrar por aquela janela. Acabou por arranjar coragem e conseguiu pular para o interior da casa.
O pó enchia-lhe as narinas rapidamente, dificultando a respiração. Não se via nada lá de dentro a não ser uma luz ténue que provinha da janela donde entrara. Procurou aos apalpões pela parede outras janelas que pudesse abrir, e encontrou-as. Abriu-as forçosamente, com a madeira das portadas a rangerem furiosamente, acordadas após longos anos de repouso.
De repente, toda a casa era luz.
Era impressionante a forma como um sítio tão belo tinha sido transformado em ruínas. Toda a decoração, os móveis antigos, os retratos nas paredes imundos pelo pó davam à criança a sensação de que aquela casa tinha sido noutra altura um lar bem mais sumptuoso do que o que a maioria das pessoas tinha acesso. Encantada pela beleza escondida daquele local, subiu as longas escadarias. Passou a casa a pente fino, apreciando cada detalhe daquela obra, abrindo as janelas ao longo do seu caminho, enchendo a casa de luz.
De repente, ao fundo dum dos corredores, uma porta.
Uma porta diferente de todas as outras da casa. Não tinha fechadura nem puxador. Impossível de abrir do lado de fora, pelo que a criança perdeu desde logo o interesse pelo quarto da porta sem fechadura. Quando deu por satisfeita a sua curiosidade em relação à casa abandonada, regressou para sua própria casa. À noite, enquanto estava deitada na cama a relembrar a sua aventura desse dia, os seus pensamentos enchiam-se de fantasias. No entanto, havia algo que a impedia de dormir.
Aquele quarto.
Um quarto onde ninguém podia entrar. Porquê? O que é que se passaria dentro daquele quarto, haveria algo de tão secreto que ninguém pudesse ver?
No dia seguinte voltou à casa. Subiu apressada a escadaria e correu para o fundo do corredor. Mais uma vez, a porta. Maciça, intransponível, austera. A criança passou as mãos pela porta, à procura de algo que a fizesse abrir, mas sem resultado. Voltou para casa e tentou dormir, mas mais uma vez aquela porta não lhe saía da cabeça.
No terceiro dia foi para a casa abandonada mais uma vez com a sua companheira inseparável, a sua boneca de trapos, e passaram horas a deambular pelas divisões das casas enquanto brincavam. Enquanto corria pelos corredores, deu por si uma vez mais frente a frente com aquela porta. Desinteressada, deu meia volta e voltou-se em direcção à escadaria, preparando-se para mais uma correria. Mas não correu. Ficou imóvel, estática de costas para aquela porta. Teria sido o seu cérebro a pregar-lhe uma partida? Virou-se lentamente de frente para a porta e olhou-a à altura do seu peito.
Não podia ser. Aquela fechadura não estava ali, não podia estar. A criança tinha passado os dois últimos dias em busca dum orifício naquela porta e, de repente, uma fechadura. A criança espreitou, curiosa, a fechadura, mas sem nenhum resultado porque nada se via através dela a não ser um manto negro. Sentou-se de costas para a porta, ainda a pensar no que é que teria acontecido para aparecer ali uma fechadura dum dia para o outro. Passou o resto do dia sentada à frente daquela porta, a brincar com a sua boneca. No final do dia, regressou para sua casa.
No dia seguinte regressou àquela casa abandonada, já nem reparava na grandiosidade das restantes divisões, apenas se concentrava em chegar rapidamente àquela porta. Quando se aproximou dela nesse dia, ficou sem reacção. Sentiu um arrepio na espinha e avançou cautelosamente, pé ante pé, até chegar à porta. Ali, mesmo em cima da fechadura que tinha misteriosamente aparecido no dia anterior, estava um puxador. Um puxador! Da cor do ouro, a reluzir, sem um único vestígio de pó. A criança pegou no puxador como se estivesse a pegar no objecto mais valioso do mundo e tentou empurrar a porta. Nada aconteceu. Tentou puxá-lo, mas mais uma vez nada aconteceu. Ainda pasmada com tal sucessão de acontecimentos, sentou-se novamente contra a porta e adormeceu.
Acordou do seu sono como que desperta dum sono de mil anos e demorou a aperceber-se onde estava. Olhou pela janela do corredor e viu um sol brilhante. Impossível! Antes de adormecer já o sol se estava a pôr…Teria passado a noite a dormir naquela casa abandonada? Levantou-se tentando perceber o que é que tinha acontecido, quando olhou para a porta. Como se tivesse levado uma forte chapada no rosto, caiu para trás. Tentou levantar-se novamente, com as pernas a tremerem por todos os lados, olhando para a chave que agora atravessava a fechadura da porta. Aquela epifania deixou-a zonza, sentia-se a cambalear enquanto se aproximava mais uma vez da porta. Quando a alcançou, agarrou com cuidado a chave e rodou-a. Abriu-a lentamente, como que a medo de acordar alguém e deixou-a fechar-se atrás de si.
O que aquela criança viu naquele quarto é algo que não pode ser descrito. O mais próximo que consigo levar-vos a imaginar o que aquela criança viu é…imaginem-se num mundo onde tudo o que querem está lá, onde todos os vossos sonhos se materializam, onde tudo o que vocês viram de maravilhoso até hoje não é nada comparado àquele quarto.
A criança não podia acreditar nos seus olhos, era impossível existir aquele quarto, mas o facto é que ela estava mesmo lá e via mesmo aquilo que os seus olhos lhe mostravam. Passou dias naquele quarto, agarrada a todas as sensações que aquele quarto lhe despertava. Até que decidiu mostrar à sua mãe o seu achado. Correu para casa, pegou na mão da sua mãe e guiou-a à casa abandonada. Ajudou-a a pular a janela, subiu as escadas aos tropeções antecipando a reacção de estupefacção da mãe mal visse aquele quarto. Quando chegou à porta, a mãe suspirou e preparou-se para lhe ralhar. Afinal, aquela porta não tinha fechadura, não tinha puxador, não tinha nada! A sua filha apenas a fez perder tempo e não lhe agradava o facto de ela ter passado tanto tempo fora de casa, ainda por cima naquele sítio. No entanto, a criança passou-lhe à frente e aproximou a mão da porta. Colocou o seu indicador e polegar unidos na ponta, como quem segura uma chave. E rodou a mão.
Subitamente, a porta abriu-se.
A criança e a mãe entraram no quarto, a criança sorria, gargalhava, pulava, enquanto via a reacção incrédula da sua mãe.
- Mãe, podemos viver aqui para sempre?
A mãe olhou à sua volta e depois para a sua filha. Tentava perceber porque é que a sua filha sorria, porque berrava, porque pulava. Não fazia nenhum sentido, aquele quarto estava
"Numa palavra, vazio."
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Eu.
Nós.
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