Este texto não é recomendado a menores. Não só pelo uso de linguagem por vezes obscena, mas também porque não gosto de crianças.
Este é o primeiro capítulo de um livro que estou a escrever em exclusivo para o blog, de nome "O coleccionador de pilas" e onde procuro inserir pessoas amigas ou conhecidas. O título, apesar de parecer idiota, não o é se lerem o "livro". Este é o seu primeiro capítulo.
UM
Podia ser apenas mais uma noite quente de Verão como qualquer outra que se fazia sentir há mais de três meses. Podia, mas não era.
No escritório de Gonçalves e Murteira Lda., bem no centro da Baixa lisboeta, Gonçalves olhava através das persianas para o tráfego lento na capital enquanto mordiscava um donut gorduroso.
- Há algo que não está certo… - murmurou Gonçalves para o seu colega que se masturbava a olhar para a imagem de uma planta exótica colocada num site qualquer da internet sobre a Amazónia. – Lisboa está demasiado silenciosa para o meu gosto…
Murteira terminou a sua tarefa, descalçou os sapatos Gucci e as suas meias Tommy Hilfiger e, pegando na sua meia do pé esquerdo, limpou os fluidos que lhe escorriam pela mão com que saudara o seu marujo.
- Relaxa Pedro, - aconselhou Murteira enquanto se calçava novamente com a sua meia agora sumarenta – não há-de ser nada…
O zumbido monotónico do telemóvel de Gonçalves interrompeu o diálogo. Num gesto automático, Gonçalves sacou-o do bolso com destreza e, puxando a antena, clicou no botão verde.
- Gonçalves. – identificou-se.
Murteira fitou o semblante do seu colega, tentando analisar a conversa que este mantinha ao telefone.
- Hum hum…sim…hum hum…ok, vamos já para o local.
- Que se passa? – perguntou Murteira vendo o rosto carregado do colega.
- Homicídio no Chiado. – respondeu, dirigindo-se já para a porta do escritório – traz as chaves do carro.
Gonçalves esperava já há dez minutos pelo seu colega. Tinha a certeza que ele saíra do escritório mesmo atrás de si, mas por alguma razão tinha voltado a entrar. A noite escura cobria o céu como um manto negro por cima dos edifícios velhos de Lisboa. Quando Murteira finalmente desceu as escadas do prédio, Gonçalves percebeu, com a sua perspicácia fora do comum, a razão que tinha levado o seu colega a demorar-se tanto no gabinete: a outra meia estava agora também ela ensopada.
Gonçalves e Murteira conheciam-se desde os tempos da tropa. Tinham feito a recruta juntos, quando Gonçalves não passava de um obeso precoce e Murteira de um aspirante a mágico sem sucesso. Agora, vinte anos depois, os primeiros cabelos grisalhos pintavam já as têmporas de Gonçalves e Rodrigo Murteira era agora um homem de meia-idade com um enorme sucesso entre os membros do sexo oposto, o que não o fazia abdicar, porém, do seu direito humano de se masturbar compulsivamente.
Gonçalves pisava o acelerador do Austin Martin da empresa a fundo, serpenteando por entre as filas do trânsito da capital com a sirene a piscar no tablier. Murteira transportava no colo a caixa de donuts que Pedro devorava sofregamente enquanto conduzia e banhava o volante de gordura com as suas mãos enormes.
- Sabes que quando me enervo parece que o meu estômago dilata – justificava-se Pedro sem tirar os olhos dos carros à sua frente.
Chegaram ao local do crime às 22:47, já alguns membros da imprensa se precipitavam sobre o cadáver estendido na calçada sob os flashes das câmaras dos jornalistas. A zona, delineada por uma fita amarela que ordenava “NÃO TRESPASSAR”, encontrava-se no meio da rua, e o cadáver jazia junto à célebre estátua de António Ribeiro Chiado.
Quando finalmente a parelha conseguiu furar por entre a multidão que assistia à funesta cena e viram o cadáver pela primeira vez, Murteira sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. “Cadáver” era um termo simpático para se chamar àquele corpo mutilado. Pedro chegou-se à frente sem estar muito seguro, em 25 anos de serviço nunca tinha assistido a uma cena daquelas.
O sangue sobre o qual o corpo se estendia parecia pertencer a mais de 4 pessoas, tal era a quantidade do líquido vermelho viscoso que cobria o passeio. A cabeça tinha sido apunhalada, provavelmente por uma faca, repetidamente, e era impossível distinguir formas, muito menos reconhecer o rosto. O peito estava aberto desde a garganta à zona púbica e a pele aberta e dilacerada. As vísceras estavam espalhadas por toda a parte, em cima do corpo, nas pernas, no chão, as mãos e os pés não tinham dedos e a parte de cima da cabeça tinha sido cortada cirurgicamente, revelando a falta de uma parte do cérebro. Os joelhos estavam esmagados, como se tivessem sido postos no meio dos carris durante a passagem de um comboio. Pela estatura do corpo e por pouco mais, Gonçalves depreendeu que se tratava de uma pessoa do sexo masculino. Porém, o órgão genital havia-lhe sido retirado. No seu lugar, apenas os cortes e os rasgões da pele eram visíveis.
Murteira finalmente ganhou coragem para se aproximar da cena macabra, mas depressa reparou num pedaço de papel que parecia ter sido colocado propositadamente após a execução. Com a pinça do seu estojo forense, Murteira retirou o papel do bolso do cadáver e começou a masturbar-se. Sem tempo para perder, Gonçalves retirou-lhe a folha das mãos e a mensagem que leu iria assombrar-lhe os sonhos durante muitos meses.
“Sou o demónio e venho do inferno para coleccionar pilas!”
ahahahahahhahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahah porra não consigo parar de rir....
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