domingo, 9 de maio de 2010

As velas ardem até ao fim

"Assim vivera no palácio, em silêncio, durante setenta e cinco anos. Sorria sempre. O seu nome voava através dos quartos, como se os habitantes do palácio se avisassem uns aos outros. Diziam: «Nini!». Como se dissessem: «É curioso, no mundo existem outras coisas além do egoísmo, da paixão e da vaidade, Nini...» E porque estava sempre presente em toda a parte onde era precisa, nunca a viam. E porque estava sempre bem disposta, nunca lhe perguntavam como podia ela estar alegre, quando o homem que amava a deixara e a criança, para quem o seu leite brotara, tinha morrido."

"[...]E nada disto tinha nome. Não eram irmãos, nem amantes. Existe outra coisa, e eles sabiam disso vagamente. Existe um certo tipo de amizade que é mais profunda e mais densa do que a dos gémeos no útero materno. A vida misturava os seus dias e as suas noites, sabiam do corpo e dos sonhos do outro."

Sándor Márai, As velas ardem até ao fim.

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